Que a Mos­tra de Ci­ne­ma se­ja aberta e fe­cha­da em ple­na li­ber­da­de e amor à ar­te.

O Estado de S. Paulo - - Primeira Página - IG­NÁ­CIO DE LOYO­LA BRAN­DÃO IG­NÁ­CIO DE LOYO­LA BRAN­DÃO ES­CRE­VE ÀS SEXTAS-FEIRAS

Meu fas­cí­nio por fes­ti­vais de­vo a Jus­ti­no Mar­tins que, na dé­ca­da de 1950, fa­zia a co­ber­tu­ra de Can­nes para a re­vis­ta Man­che­te. Can­nes era o má­xi­mo em gla­mour, be­le­za, mu­lhe­res lin­das, es­tre­las, gran­des di­re­to­res. Nin­guém pen­sa­va no Oscar, era, e é, fes­ti­nha pro­vin­ci­a­na de Hollywo­od. As es­tre­las fran­ce­sas eram sen­su­ais e mos­tra­vam os sei­os com ge­ne­ro­si­da­de, coi­sa que não se via no ci­ne­ma ame­ri­ca­no. Bri­git­te Bar­dot, Mylè­ne De­mon­ge­ot, Si­mo­ne Sig­no­ret, Mar­ti­ne Ca­rol, Fran­çoi­se Ar­noul, Cé­ci­le Au­bry, Clau­di­ne Du­puis eram mi­nhas pre­fe­ri­das. Mas Can­nes ti­nha di­re­to­res co­mo Re­né Cle­ment, Mar­cel Car­né, Ro­bert Bres­son, Je­an Re­noir, Clou­zot, Res­nais, de­pois Truf­faut, Go­dard, Agnès Var­da (ela es­tá vin­do), Louis Mal­le. Para nós, Can­nes era in­te­lec­tu­a­li­da­de e sen­su­a­li­da­de. Era aci­ma de tu­do a festa do ci­ne­ma, e os olhos do mun­do se vol­ta­vam para lá. Ain­da é. Nun­ca fui, é um de meus pro­je­tos há tem­po, te­nho ape­nas 81 anos. De­pois, des­co­bri Ve­ne­za, San Se­bas­tián, Berlim, Kar­lovy Vary, pu­ra ce­le­bra­ção de fil­mes.

Em 1954, lá de Ara­ra­qua­ra, acom­pa­nhei em tran­se, o 1.º Festival In­ter­na­ci­o­nal de Ci­ne­ma do Bra­sil, par­te das fes­tas do 4.º Cen­te­ná­rio. Ban­dos de es­tre­las, ato­res e di­re­to­res nor­te­a­me­ri­ca­nos, fran­ce­ses, ita­li­a­nos, me­xi­ca­nos. En­tre ou­tros, o le­gen­dá­rio Eri­ch von Stroheim, que tí­nha­mos vis­to em Cre­pús­cu­lo dos Deu­ses, de Bi l l y Wi ld e r . T a mbém vi e r a m Edward G. Ro­bin­son e Wal­ter Pid­ge­on, que se pu­se­ram a pre­gar a fa­vor da lis­ta ne­gra e das pri­sões e inqué­ri­tos ins­tau­ra­dos em Hollywo­od pe­lo odi­o­so se­na­dor McCarthy, con­tra a li­ber­da­de de ex­pres­são, que aca­bou com a car­rei­ra de cen­te­nas de ci­ne­as­tas e ato­res de pri­mei­ra li­nha. A ar­te sem­pre in­co­mo­dou os opor­tu­nis­tas.

Da­que­le festival te­nho o car­taz original a mim pre­sen­te­a­do pe­lo seu au­tor Ale­xan­dre Woll­ner. Emol­du­ra­do, me lem­bra que ci­ne­ma foi meu sonho. Subs­ti­tuí pe­la li­te­ra­tu­ra, que me dá enor­me pra­zer (e an­gús­tia). Fes­ti­vais de ci­ne­ma bra­si­lei­ro co­bri mui­tos por es­te Bra­sil. Nos anos 1960 e 1970, eles pi­po­ca­vam pe­lo País.

Lem­bro-me ain­da de dois fil­mes da pri­mei­ra Mos­tra de São Pau­lo, em 1977, Lú­cio Flá­vio, o Pas­sa­gei­ro da Ago­nia e O Enig­ma de Kas­par Hau­ser. Cri­a­da por Le­on Ca­koff com a for­ça que so­men­te um lou­co so­nha­dor di­vi­no apai­xo­na­do po­de, a Mos­tra se­guiu e che­ga à 41.ª edi­ção. Das Mos­tras e dos fes­ti­vais te­nho ain­da a nos­tal­gia da ma­lu­qui­ce que sig­ni­fi­ca­va es­co­lher os fil­mes. Era ne­ces­sá­rio uma lo­gís­ti­ca apu­ra­da. Ain­da é. Fil­mes, ho­rá­ri­os, sa­las, des­lo­ca­men­tos en­tre uma sa­la e ou­tra, ho­ras de co­mer (vi mui­to filme com fo­me, e daí?). In­ve­ja- va os que ti­nham per­ma­nen­tes, ou se­ja aces­so gra­tui­to. Sem­pre ti­ve pu­dor e edu­ca­ção, ja­mais quis dar “car­tei­ra­da”, ain­da que te­nha da­do uma e ou­tra. Jornalista e crí­ti­co, co­nhe­cia os bas­ti­do­res e sa­bia da saia-jus­ta dos or­ga­ni­za­do­res com a or­ga­ni­za­ção e os “car­tei­ran­tes”. O su­jei­to che­ga: “Sa­be qu­em sou? Cla­ro que sa­be! Ve­ja aí, pre­ci­so de tan­tos in­gres­sos para tan­tas pes­so­as para os fil­mes”. E vem uma lis­ta de to­da a Mos­tra.

For­má­va­mos gru­pos, fa­zía­mos as es­co­lhas, nos di­vi­día­mos, ía­mos para as fi­las. Ao ama­du­re­cer, pas­sei a ter co­la­bo­ra­ção dos meus fi­lhos, os três ado­ram ci­ne­ma, um faz fo­to­gra­fia de ci­ne­ma. Tu­do é adre­na­li­na, até o mo­men­to de as cor­ti­nas se abri­rem (são ra­ras as cor­ti­nas nas sa­las) e o fo­co azu­la­do ba­ter na te­la. Aí, co­me­ça a emo­ção. Para mim, igual des­de o pri­mei­ro filme que vi, A Can­ção de Ber­nar­det­te, que me dei­xou si­de­ra­do. Eu ti­nha 10 anos.

Com pa­ci­ên­cia, ga­rim­po, dú­vi­das, dí­vi­das, pes­qui­sas, con­ta­tos, bus­ca de pa­tro­cí­ni­os, Le­on Ca­koff re­a­li­zou su­as mos­tras por anos. Ho­je, ele é uma figura tão im­por­tan­te na his­tó­ria do ci­ne­ma em São Pau­lo, quan­to Pau­lo Emí­lio Sa­les Go­mes, Al­mei­da Sal­les, Caio Scheiby, Ru­dá de Andrade, Dan­te An­co­na Lopes, Be­ne­di­to J. Duarte, Je­an-Clau­de Ber­nar­det. Sei que há de­ze­nas de ou­tros. Da­qui a uma se­ma­na, te­rá ini­cio mais uma Mos­tra. Nas mãos de Re­na­ta de Al­mei­da, que, as­sim que o ma­ri­do Le­on par­tiu, dis­se: ago­ra é co­mi­go. E es­tá sen­do, mes­mo por­que é a vez das mu­lhe­res. Lem­bro­me de mu­lhe­res que nos pri­mei­ros tem­pos fo­ram su­por­te na Ci­ne­ma­te­ca Bra­si­lei­ra – um pou­co ba­se teó­ri­ca de tu­do is­so –, co­mo or­ga­ni­za­do­ras, ar­qui­vis­tas, as­ses­so­ras de im­pren­sa, quan­do tu­do era meio ama­dor: Nil­ce Tran­jan, Fá­ti­ma Pa­che­co Jor­dão, Lu­ci­la Ber­nar­det, Ly­gia Fa­gun­des Tel­les.

Ain­da não sei o que vou ver. Há mui­to, mas mui­to mes­mo, são 390 fil­mes, boa par­te di­ri­gi­da por mu­lhe­res, há tam­bém fil­mes so­bre di­ver­si­da­de, pro­ble­mas do mun­do. Al­go me dei­xa ago­ni­a­do. Ima­gi­nem se aque­les que an- dam de olho, vi­gi­an­do o “exagero das ar­tes”, em no­me dos cos­tu­me e da mo­ral, de­ci­di­rem in­ter­vir? Vai dar re­be­lião. Fi­co pen­san­do se es­sa gen­te de Ne­an­der­tal per­cor­res­se mu­seus, dan­do com te­las co­mo A

Ori­gem do Mun­do, de Cour­bet. Ou a

Vê­nus Dei­ta­da, de Ti­ci­a­no Ve­cel­lio, em que um ga­ro­ti­nho tem as mãos nos sei­os de uma far­ta mu­lher – pe­do­fi­lia? Ou – ó Deus – A Ma­don­na de Lei­te, de Lo­ren­zet­ti em que Ma­ria dá os sei­os a Je­sus. Sem es­que­cer os olhos las­ci­vos do be­bê di­an­te do seio da Ma­don­na no qua­dro Vir­gem do Lei­te, de Frei Carlos, sé­cu­lo 16. Sa­cri­lé­gi­os? E o que pen­sar de A Fon­te, de Du­champ? Um mic­tó­rio é ar­te?

Que a Mos­tra, tra­di­ção cul­tu­ral do Bra­sil, tão im­por­tan­te quan­to a Bi­e­nal In­ter­na­ci­o­nal de Ar­tes, se­ja aberta e fe­cha­da em ple­na li­ber­da­de, amor à ar­te, emo­ção. O que me en­can­ta é ver nas sa­las a mul­ti­dão de jo­vens an­si­o­sos, in­qui­e­tos, fa­mé­li­cos. De ben­ga­la, pé ava­ri­a­do em uma que­da, vou aos ci­ne­mas que es­ti­ve­rem mais per­to. Su­bi­rei à Pau­lis­ta, ao vão do Masp, para re­ver

O Pa­dre e a Mo­ça, de Jo­a­quim Pe­dro, e ado­ra­rei des­cer ao cen­tro, ao re­no­va­do Ma­ra­bá, que abri­gou to­das as es­trei­as da Ve­ra Cruz. Vou ten­tar ver o má­xi­mo. Um ami­go me viu, fi­cou pe­sa­ro­so: “Co­mo vai es­cre­ver ago­ra, com es­se pé in­cha­do?”. Res­pon­di: “Es­cre­vo com a ca­be­ça e a mão”. A Mos­tra mis­tu­ra em mim o on­tem, o ama­nhã e o ho­je. O ci­ne­ma eli­mi­na o tem­po.

De ben­ga­la, pé ava­ri­a­do em uma que­da, vou re­ver ‘O Pa­dre e a Mo­ça’, de Jo­a­quim Pe­dro

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