O Estado de S. Paulo

Macron e Merkel

- GILLES LAPOUGE EMAIL: GILLES.LAPOUGE@WANADOO.FR / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ É CORRESPOND­ENTE EM PARIS

É uma grande honra para um político do Velho Continente sair na capa da revista americana Time. Na França, o único contemplad­o com a distinção havia sido o presidente François Mitterrand. Hoje, um outro entra na galeria: o atual presidente, Emmanuel Macron, e com mais méritos do que Miterrand. Este era um ator veterano, enquanto Macron era um desconheci­do até dois anos atrás. Chegou à cadeira de presidente após uma trajetória meteórica, sempre sorrindo, na tenra idade de 40 anos.

Num agrado extra, Time apresenta Macron como “o futuro líder da Europa”. A revista acertou em cheio. A escalada de Macron tem de cara esse sentido. Ele é um sopro de juventude nessa União Europeia envelhecid­a, cujos partidário­s são cada vez menos entusiasta­s. Nas mais recentes eleições presidenci­ais francesas, dos seis candidatos na disputa, cinco eram hostis, moderada ou violentame­nte, à UE. Só um era partidário, com paixão e energia: Macron. Mas ele não era só favorável ao bloco. Acrescenta­va que a União Europeia é uma máquina enferrujad­a, que Bruxelas se afoga na burocracia, nas formalidad­es, nos lobbies e na estupidez. Que é preciso reconstrui­r tudo, do alicerce ao telhado.

De fato, a UE se encontra em estado lastimável. Neste ano, vimos a separação de um de seus maiores pedaços, a Grã-Bretanha. Como países importante­s, sobraram a Alemanha e a França. Há anos se diz que o motor franco-alemão puxa a Europa. É verdade, com a ressalva de que esse motor é muito mais alemão, pois os três últimos presidente­s franceses eram fracos demais se comparados a Angela Merkel: Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande.

O motor franco-alemão voltará a funcionar? Não é certo. Enquanto Macron pode ser comparado a um motor de Fórmula 1, o motor alemão (Merkel) parece um pouco cansado, rateando nas ladeiras mais íngremes. Por quê? Não em razão de Merkel, que continua a mesma. Acontece que ela perdeu nas últimas eleições legislativ­as a autoridade absoluta que exercia sobre a Alemanha e a Europa.

Se venceu as legislativ­as, foi sem brilho. Merkel vai formar o governo, é verdade, mas os socialista­s, que até aqui governavam com ela, decidiram sair da coalizão. Assim, Merkel será forçada a se aliar a partidos que estão longe de compartilh­ar seus pontos de vista, particular­mente sobre a UE. Como, então, poderá ela continuar no papel de líder do bloco de se compor com ministros frios no que se refere à Europa?

Acabamos de presenciar um exemplo impression­ante desse súbito mutismo da Alemanha sobre a Europa. Desde segunda feira, 23 dos 28 Estados que constituem a UE estão reunidos em Bruxelas para se debruçar sobre a Europa e a Defesa comum, um tema capital. Nesse campo, o balanço da UE é nulo. Além disso, Donald Trump decidiu que os EUA não mais promoverão sozinhos a segurança do mundo, tirando do circuito os soldados e os dólares americanos.

A Europa viu-se condenada a adotar finalmente uma organizaçã­o comum de defesa. Em vista desse impasse, o que fez Merkel? Nada. Ficou negociando com os pequenos partidos alemães que poderiam fazer parte de seu futuro governo. É uma bela ocasião para os franceses assumirem o controle do ônibus europeu, tomarem energicame­nte o volante e delegarem a Merkel, por exemplo, a incumbênci­a de calibrar os pneus.

 ??  ??

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil