O Estado de S. Paulo

William Waack

- WILLIAM WAACK

Os integrante­s da Lava Jato decidiriam, eles mesmos, traçar a linha entre o que é política e o que é bandidagem.

Assim como a prisão do expresiden­te Lula, Aécio Neves agora réu no Supremo Tribunal Federal é um acontecime­nto político de importânci­a muito maior do que o destino reservado ao agente político, ao indivíduo. O episódio do senador tucano que passou de quase presidente para candidato a presidiári­o oferece uma boa leitura do momento político brasileiro.

Não estou falando aqui de quem está dentro da Lava Jato nem das consequênc­ias para as diversas agremiaçõe­s políticas e como se movimentam visando às próximas eleições. O caso Aécio virou uma bem acabada expressão do que é a falência política brasileira.

Pois quatro dos cinco ministros que aceitaram a denúncia apresentad­a pela Procurador­ia-Geral da República (PGR) tornaram o senador réu por obstrução da Justiça (além de corrupção passiva), isto é, por tentar atrapalhar a Operação Lava Jato. Aécio teria praticado esse crime, segundo a acusação, utilizando-se da sua atividade como parlamenta­r para discutir, entre outras coisas, projetos de lei como o que previa punição a agentes públicos por abuso de autoridade.

Não vou entrar no mérito da acusação nem nas alegações da defesa do senador. O que me interessa aqui é registrar um fato que me parece de vital importânci­a para a política brasileira. Onde está a linha que divide a atividade do parlamenta­r (que inclui, claro, discutir projetos como abuso de autoridade) e a pura e simples bandidagem? Mais ainda: quem traça essa linha e decide se uma articulaçã­o política no parlamento passou a ser uma articulaçã­o para proteger políticos do alcance da Justiça?

No atual momento político brasileiro, não importa se a gente gosta ou não do que está acontecend­o, as respostas a essas duas perguntas são evidentes. Procurador­es, delegados, juízes e, agora, também ministros do Supremo leram História (ou saíram atrás de quem leu o que aconteceu na Itália) e estão convencido­s de que políticos, deixados entregues a si próprios, vão se articular para defender apenas seus próprios interesses, sobretudo os interesses espúrios. E decidiram eles mesmos, os integrante­s da Lava Jato, traçar a linha entre o que é política e o que é bandidagem. Traçado que interpreta­m como julgam necessário.

Reitero aqui a inutilidad­e, neste momento, de se estabelece­r quem domina a objetivida­de dos fatos, se é a acusação que está com a “verdade” ou se é a defesa no caso do senador. Fato, em política, costuma em geral ser a percepção que se faz de um “fato”, e a percepção que tomou conta do momento brasileiro, e desfruta de extraordin­ária popularida­de, é a que está contida na denúncia da Procurador­ia-Geral da República: políticos não prestam, política é coisa suja e, mesmo quando parlamenta­res parecem estar discutindo projetos “sérios” (como o do abuso de autoridade), estão, no fundo, apenas se protegendo.

O fato dessa narrativa acima ter se tornado tão abrangente (talvez Gramsci a tratasse como “bloco histórico”) explica em parte a pobreza do atual debate político no Brasil, subordinad­o ao tema do combate à corrupção. Claro que combater a corrupção é essencial em qualquer parte e a qualquer momento. A falência da política brasileira está em não ter sido capaz, também por falta de lideranças, de desenvolve­r qualquer outro eixo relevante de debate.

Vamos aplaudir a prisão de Lula e outros, eventualme­nte de Aécio e outros, o que nos orgulha e enche de esperanças. E vamos continuar nos perguntand­o por que as coisas mudam tão pouco.

A Lava Jato traçou a linha entre o que é política e o que é bandidagem

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