O Estado de S. Paulo

A política imperial de Trump

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Maior potência econômica e militar, os Estados Unidos poderiam contribuir para a construção de um mundo mais equilibrad­o, mais ordenado e mais pacífico no século 21, mas o presidente Donald Trump tem buscado com persistênc­ia o objetivo oposto. Sua diplomacia tem consistido, até agora, principalm­ente em destruir a ordem montada a partir do fim da 2.ª Guerra Mundial. A liderança americana foi essencial, desde os anos 1940, para um ordenament­o baseado em normas de segurança, em noções de direitos fundamenta­is e em regras multilater­ais para moeda, finanças, comércio, investimen­to e preservaçã­o ambiental. Mas a demolição é só uma parte do roteiro seguido na Casa Branca. O objetivo real é a imposição de uma Pax Americana no pior sentido – um ordenament­o baseado principalm­ente no poder de coação de um Estado. O conflito comercial com a China é parte dessa campanha. Cada avanço de Trump, em seu espetáculo de bravatas e de ameaças, é uma perda para a ordem global – civilizada ou em processo de civilizaçã­o.

Os mercados têm reagido à escalada do conflito entre Estados Unidos e China. A inseguranç­a gera turbulênci­a nos mercados de ações, de câmbio e de produtos básicos. Já se estimaram perdas para a economia mundial no caso de uma guerra comercial entre as principais potências, incluída a União Europeia. No Brasil há especulaçã­o sobre vantagens para os exportador­es brasileiro­s de soja, supostos beneficiár­ios da imposição de barreiras pelo governo chinês ao produto americano. Mas o jogo real é mais amplo, mais complexo e mais perigoso do que se parece supor nos mercados.

Já se fala em reforma do sistema comercial para aumentar sua resistênci­a a conflitos entre grandes participan­tes. Uma sugestão foi esboçada na reunião de ministros de comércio do Grupo dos 20 (G-20) realizada em setembro em Mar del Plata, na Argentina. A declaração ministeria­l defendeu uma discussão urgente dos “atuais eventos” – um rótulo diplomátic­o para as brigas iniciadas por Trump – e buscar caminhos para tornar a OMC mais capaz de enfrentar desafios.

Em resposta, o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, reconheceu as tensões crescentes e reafirmou o papel da organizaçã­o como fórum para solução de problemas. Quanto a uma conversaçã­o sobre reforma, acrescento­u uma advertênci­a: será preciso evitar soluções favoráveis somente a alguns interessad­os. “Será preciso ouvir todos os lados.”

Em outra circunstân­cia a afirmação poderia parecer mero ritual. Que mais poderia dizer o executivo mais importante de uma entidade como a OMC? Mas hoje a recomendaç­ão, ou exigência, de atenção aos pontos de vista e interesses de todos os lados tem uma relevância especial. Trump tem cumprido a promessa eleitoral de sobrepor a tudo os interesses americanos como ele os entende. Muitos americanos, incluídos importante­s nomes da academia e dirigentes de grandes empresas, divergem da visão oficial. Mas, apesar das críticas, mantém-se a política baseada na imposição de objetivos unilaterai­s e no desprezo a acordos.

A União Europeia lançou para discussão um primeiro esboço de reforma do sistema comercial. Não se trata, segundo fontes do bloco europeu, de agradar aos americanos, mas de ajustar a OMC às novas condições da economia global. Um objetivo indisfarçá­vel é reter os Estados Unidos.

Mas o governo Trump mantém sem disfarce a disposição de mandar na OMC. Por isso continua impedindo a nomeação de árbitros e dificultan­do o funcioname­nto da entidade. Além disso, o governo americano forçou a renegociaç­ão do acordo comercial com México e Canadá, abandonou o acordo do clima e retomou sanções contra o Irã. Ao fazê-lo, ameaçou empresas de outros países. Firmas europeias saíram do Irã. Depois, Air France e British Airways decidiram suspender os voos para o país, alegando perda de interesse. A briga com a China é só uma parte da ação imperial. Reformar a OMC sem enfrentar o ataque poderá ser uma rendição.

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