O Estado de S. Paulo

Secretário: policiais são ‘coautores’ em MG

Um agente morreu baleado em tiroteio causado por policiais paulistas e mineiros

- Bruno Ribeiro José Maria Tomazela Leonardo Augusto ESPECIAL PARA O ESTADO

O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves, afirmou ontem que trata os nove policiais civis do Estado que se envolveram em um tiroteio com policiais mineiros em Juiz de Fora (MG) como coautores dos crimes praticados na ação, incluindo a morte de um agente mineiro.

As informaçõe­s já obtidas dão conta de que os policiais faziam a escolta de um empresário que ia de São Paulo para Juiz de Fora trocar dólares de forma clandestin­a. O negócio deu errado quando se descobriu que parte das cédulas em real que seriam usadas na negociação era falsa. Quatro dos policiais paulistas – dois investigad­ores e dois delegados, sendo um deles do Grupo de Operações Especiais (GOE), força de elite – estão presos em Minas

Mágino Alves afirmou que a apuração da Corregedor­ia vai além do fato de os agentes estarem fazendo trabalho extra oficial, o “bico” de seguranças privados – o que por si só já é vedado pela Lei Complement­ar 2007/79. “(O que está em curso)é bem diferente de uma conduta extraofici­al simples e corriqueir­a. Todos nós assistimos à grande quantidade de dinheiro (R$ 14 milhões) que estava sendo transporta­da. Isso não permite dizer que era só um trabalho de acompanham­ento, de escolta. Era um trabalho em coautoria com o crime que estava sendo cometido pelo particular”, declarou o secretário.

As investigaç­ões criminais estão sob responsabi­lidade da Polícia Civil de Minas Gerais, enquanto a Corregedor­ia paulista apura infrações administra­tivas dos agentes de São Paulo. Para a polícia mineira, conforme audiência de custódia feita após a prisão em flagrante dos policiais, o empresário paulista Flávio de Souza Guimarães e Roberto Uyvare Júnior, “dono de empresas situadas em França, Espanha e Brasil”, havia contratado a empresa de segurança de Jerônimo da Silva Leal Júnior, para “realizar um negócio milionário” em Juiz de Fora com o empresário Antônio Vilela.

Guimarães teria saído do local do tiroteio, o estacionam­ento de um hospital da cidade, antes de a troca de tiros começar. Leal Júnior e Vilela ficaram feridos na ação e estão presos. Leal Júnior seria dono de uma empresa de segurança e teria organizado o que a polícia mineira chama de “escolta vip”.

Os paulistas envolvidos, em sua maioria, são policiais jovens e não tinham antecedent­es de infrações funcionais graves. O delegado Rodrigo Castro Salgado da Costa, de 31 anos, do Grupo de Operações Especiais (GOE) da Polícia Civil de São Paulo, um dos presos em Minas, faz parte de uma safra de delegados em início de carreira que têm atuado com destaque em algumas ações na capital paulista. Ele é amigo do investigad­or Jorge Alexandre de Miranda, de 50 anos, lotado no Departamen­to

Prisões decretadas

Quatro policiais paulistas, entre eles dois delegados, foram autuados por lavagem de dinheiro. Eles estão presos no Complexo Nelson Hungria, em Contagem. de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), que por sua vez é meio-irmão de Leal Junior. O dono da empresa de segurança conversou com Jorge sobre o trabalho, pedindo que o ajudasse a recrutar policiais para ajudá-lo na escolta. O convite chegou a Rodrigo que, por sua vez, exigiu que outros policiais, seus amigos, participas­sem da operação, convidando o colega delegado Bruno Martins Magalhães Alves, de 30 anos, assistente do 95.º Distrito Policial (Heliópolis).

Outros seis policiais – os investigad­ores Caio Augusto Freitas Ferreira de Lira, Marcelo Pailotti de Almeida e Eduardo Alberto Modolo Filho, os agentes Cristhian Fernandes e Ferreira Cesar Raileanu, e o carcereiro Leandro Korey Kaetsu – foram chamados para dar suporte à operação. O delegado Rodrigo viajou a Juiz de Fora no avião fretado pelo empresário, enquanto os outros oito policiais foram em dois carros alugados.

Os detalhes do “desacerto”, o desentendi­mento que resultou no tiroteio, ainda não estão claros. Antonio Vilela, o empresário mineiro que negociava com Flávio de Souza Guimarães, já havia sido detido pela Polícia Civil em São Paulo, em2015, na cidade de São Roque, acusado de “aplicar um golpe” usando notas de dinheiro falsa.

Negativa. Flávio Guimarães prestou depoimento na Corregedor­ia da Polícia Civil ontem e negou que estivesse vendendo dólares na ação. Afirmou que iria “pedir um empréstimo” para sua empresa e havia contratado a segurança de Jerônimo Leal Júnior sem saber que os agentes seriam policiais civis. O Estado não localizou a defesa de nenhum dos citados.

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DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO Lavagem de dinheiro. Ação em Juiz de Fora envolveria troca de R$ 14 milhões por dólares

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