O es­tran­gei­ro

Jornal de Negócios - - Weekend - Jo­sé Tiny MA­NU­EL S. FON­SE­CA O AU­TOR ES­CRE­VE COM A AN­TI­GA ORTOGRAFIA

Gos­to dos es­tran­gei­ros. Ora, num tem­po em que a ge­ne­ra­li­za­ção an­da pe­las ru­as da amar­gu­ra, que­ro sus­sur­rar ao ou­vi­do do pa­ci­en­te lei­tor qual é o es­tran­gei­ro de que gos­to. O tu­ris­ta, sen­do co­mo é – um ma­mí­fe­ro em bus­ca de sal e sol – tem a nos­sa con­des­cen­dên­cia e sim­pa­tia em­bru­lha­das em consumo e IVA. Es­se é o es­tran­gei­ro de que o Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças gos­ta. Eu gos­to do es­tran­gei­ro que mo­ra aqui. Gos­to do es­tran­gei­ro, do ho­mem e da mu­lher que es­tão sós, que não têm nin­guém que lhes fa­le a lín­gua e que vi­vem con­nos­co. Gos­to do ame­ri­ca­no de Be­ja, da fran­ce­sa de Se­sim­bra, do di­na­marquês de Al­je­zur, do zai­ren­se da Ca­pa­ri­ca. Apren­di a gos­tar de­les, gos­tan­do da im­pla­cá­vel ale­mã do meu pri­mei­ro em­pre­go num ho­tel do Lo­bi­to. A acir­ra­da dis­ci­pli­na que lhe fais­ca­va nos olhos e tro­ve­ja­va na bo­ca era a for­ma de pa­gar o amor ao Lo­bi­to, à res­tin­ga e ao mar tro­pi­cal em que vi­si­ta­va so­nho e li­ber­da­de. O es­tran­gei­ro é o que es­co­lheu – mes­mo quan­do pa­re­ce que não es­co­lheu – car­re­gar a nos­sa cruz, o nos­so céu, ter­ra e mar, a nos­sa amar­gu­ra e a nos­sa in­co­mu­ni­cá­vel ale­gria. O por­tu­guês que an­da pe­las ru­as do Por­to ou Lisboa po­de mui­to bem che­gar ao pé de um des­ses es­tran­gei­ros e di­zer-lhes “I’m a stran­ger he­re my­self”, co­mo se fos­se o he­rói au­to­com­pla­cen­te de “Johnny Gui­tar”. Eis o por­tu­guês da tre­ta e a pi­e­do­sa con­ver­sa de ca­fé. O es­tran­gei­ro não quer ser “stran­ger”, quer é va­gue­ar as noi­tes pa­ra ou­vir o fado de Portugal, e ne­le e por ele ser nos­so irmão. O es­tran­gei­ro é o que se en­tre­ga, frá­gil, in­de­fe­so, à des­co­ber­ta. Quer, em nós, des­co­brir-se a si mes­mo.

O es­tran­gei­ro não tem re­de – ou tem, quan­do mui­to, pou­ca re­de. Hon­ra-nos com es­sa de­sar­man­te vul­ne­ra­bi­li­da­de. Se qui­sés­se­mos, po­de­ría­mos ma­tar o es­tran­gei­ro, ba­ter-lhe, dar-lhe um ti­ro, es­tran­gu­lá-lo. Só um co­bar­de o fa­ria, por­que o es­tran­gei­ro que vem mo­rar con­nos­co é o que se nos con­fia, o que nos dá o seu amor an­tes de sa­ber se o ire­mos amar.

O es­tran­gei­ro é por­tu­guês por­que os por­tu­gue­ses, no seu me­lhor, sem­pre fo­ram es­tran­gei­ros. Nun­ca ao ver­da­dei­ro por­tu­guês lhe bas­tou Portugal pa­ra ser o por­tu­guês que que­ria ser.

Nem pre­ci­so de cha­mar Ca­mões co­mo tes­te­mu­nha. O por­tu­guês que quer ser por­tu­guês vai ser Fer­não Men­des Pin­to pa­ra o oce­a­no Pa­cí­fi­co, e nin­guém foi mais por­tu­guês do que Wen­ces­lau de Morais no Ja­pão. E há mes­mo for­mas cruéis de se ser por­tu­guês – eu não de­via di­zer is­to nes­tes tem­pos de fol­cló­ri­ca chan­ta­gem his­tó­ri­ca, mas o por­tu­guês que quer ser por­tu­guês vai ser, a fer­ro e fo­go, Afon­so de Al­bu­quer­que em Or­muz. Ou vai plan­tar ca­fé em An­go­la, ba­ter cha­pa na Ale­ma­nha, ser porteira em Pa­ris ou pa­dei­ro de Ma­naus a Santa Catarina.

O por­tu­guês com ân­si­as de ser por­tu­guês quer mar e mar, quer ir sem sa­ber se vai vol­tar. Fer­nan­do Pes­soa can­tou-se co­mo o vi­a­jan­te que nun­ca saía do cais. Bas­tar-lhe o cais e ver par­tir os ou­tros é uma for­ma de abs­ten­ção – que pe­na que ele te­nha de­sis­ti­do de ser por­tu­guês. E é men­ti­ra, por­que Fer­nan­do Pes­soa se rein­ven­tou noutros nomes e, sen­do quem era, foi tam­bém o en­ge­nhei­ro Ál­va­ro de Cam­pos, que an­dou em bo­lan­das de Glas­gow a Lon­dres, co­mo foi o la­ti­nis­ta Ri­car­do Reis, que se bal­de­ou pa­ra o Bra­sil, já pa­ra não fa­lar dos ves­tí­gi­os ado­les­cen­tes, que ele mes­mo, me­ni­no Fer­nan­do ain­da, dei­xou em Dur­ban.

Em Portugal, não há na­da mais por­tu­guês do que o es­tran­gei­ro à por­ta de sua ca­sa, com um ri­dí­cu­lo cão ao co­lo ou um pre­gui­ço­so ga­to a ro­çar-lhe a per­na. De to­das as so­li­dões, es­se es­tran­gei­ro do­més­ti­co es­co­lheu pa­ra vi­ver a poé­ti­ca so­li­dão de Portugal. É o mais bo­ni­to elo­gio que nos po­dem fa­zer.

O es­tran­gei­ro é por­tu­guês por­que os por­tu­gue­ses, no seu me­lhor, sem­pre fo­ram es­tran­gei­ros. Nun­ca ao ver­da­dei­ro por­tu­guês lhe bas­tou Portugal pa­ra ser o por­tu­guês que que­ria ser.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.