Jornal Cultura : 2019-08-20

Barra Do Kwanza : 15 : 15

Barra Do Kwanza

15 Cultura BARRA DO KWANZA | 20 de Agosto a 2 de Setembro de 2019 | edaluz sotaqu O cujas páginas iam caindo, abandonada­s, sobre o sofá e sobre a carpete, como as folhas amareladas da amendoeira lá fora, no quintal. Pigarreou e disse-lhe: - Mausiku, papá! - Uhn? O que é que disseste, Julinho? - Eu disse: Boa noite, papá. Como é que tu não percebeste? - Em que língua, Julinho? – Murmurou o pai, a voz arrastada, os olhos semicerrad­os. - Na vossa língua, pai. A mãe disse que a vossa língua se chama Ciwute. - Não, Julinho, nesse caso, essa não é a nossa língua. A língua que se fala onde eu nasci chama-se Shimakonde. - Shimakonde?! E onde é que se fala essa língua, é em Chimoio também? - Não. É em Cabo Delgado. - Isso quer dizer que onde tu nasceste falam de uma maneira diferente de onde a mamã nasceu? - Falamos, sim. Usamos palavras diferentes, mas dizemos as mesmas coisas. - Então, e como se diz “Boa noite” e “Obrigado” em… Shimakonde? - Boa noite, diz-se Machala alhulo e obrigado diz-se Assante. - Machala alhulo, papá – disse o Julinho, arrastando as palavras, mas cheio de orgulho, dando um beijo na face do pai, que o retribuiu, dizendo: - Machala alhulo, Julinho. Assante. Vendo-se inesperada­mente em posse de um tal acervo de conhecimen­tos novos, o Julinho não ia conseguir pregar olho sem antes os exibir a alguém. Em casa, àquela hora, só restava o senhor Azarias, o guarda. Por isso, cuidando de não fazer barulho para não ser intercepta­do pelos pais, e ver a sua escapadela interrompi­da, tratou de se esgueirar para o quintal, com essa intenção irmada. Localizan- do-o entrinchei­rado na guarita junto ao portão de entrada, onde ele se acoitava das sombras que se moviam e da cacimba que já começara a pousar sobre a cidade, dirigiu-se sorrateira­mente a ele, e sem delongas disparou, pregando-lhe um valente susto: - Machala alhulo, senhor Azarias. - Machacha o quê, menino Julinho? Não entendi – ripostou aquele, saindo do seu esconderij­o, ajeitando o boné. - Ah, já sei. Então, Mausiku, senhor Azarias. - Mau o quê? Você, Julinho, está a sentir-se bem? O que está a fazer aqui fora a esta hora? Caiu lá na escola, hoje, ou coisa assim? Está a doer aonde? Está a falar muitas coisas estranhas… - O quê, também não percebeu? Estou a dizer-lhe “Boa noite” na língua da terra onde o senhor nasceu, então! Como é que não percebeu? - Boa noite? Ahhh! A inal? Nesse caso, Dziphelile, menino Julinho. - Dzipheo quê? Isso quer dizer o quê, agora? -Ora, quer dizer “Boa noite” na língua da terra onde eu nasci, como o menino Julinho falou! - O quê, mais outra maneira diferente de dizer “Boa noite”?! A inal, quantas maneiras há para dizer “Boa noite”? O guarda Azarias icou hesitante. Aquele não era exactament­e o tipo de assuntos em que costumava ocupar os seus pensamento­s. Simulou que estava a arrumar qualquer coisa no interior da sua trincheira, para se dar algum tempo para pensar sem que o Julinho se apercebess­e das di iculdades em que aquela pergunta o colocara. “Essas crianças de agora, também, fazem cada pergunta!” - Pensou. Por im, o Azarias lá encontrou uma saída airosa: - Olha, menino Julinho, deve haver tantas maneiras de dizer “Boa noite” quantas as terras que existem no mundo. Em todas as línguas, as pessoas bem-educadas despedem-se das outras quando vão dormir, desejandol­hes boa noite, e os outros respondem a agradecer. - Quer dizer que o Senhor Azarias é de uma terra diferente da terra da minha mãe e da terra do meu pai? Onde é a sua terra? E como se chama a língua de lá? - Eu sou daqui, de Maputo. Nasci na Catembe. O nome da língua que se fala cá é Xirhonga. - A inal? E como é que se diz obrigado nessa língua? - Khanimambo. - Mas, então, senhor Azarias, com tantas línguas assim, como é que se conseguem cumpriment­ar entre si pessoas que falam línguas diferentes? O guarda Azarias, que já havia relaxado, retomou a postura militar, como lhe cabia, ensaiou dois passos, e espreitou para fora do quintal, assim como quem veri ica se não há nenhum intruso com intenções malévolas emboscado nas redondezas, mais uma vez apenas para ganhar o tempo de poder voltar a rebuscar os apontament­os da única escola que frequentar­a, a escola da vida, de forma a poder dar uma resposta válida ao Julinho, e a seguir replicou: - É simples. Olhas para a cara da pessoa, rasgas um sorriso até se verem os teus dentes, e estendes-lhe a mão aberta. Mas, cuidado, devagar – disse, enquanto fazia ele próprio tais gestos e esgares. - Isso quer dizer boa noite em todas as línguas deste mundo. Nesse instante, uma luz azul de grande intensidad­e acendeu a noite. O Julinho e o Azarias, os dois paralisado­s pela surpresa, viram um objecto voa- CARLOS DOS SANTOS O Julinho saiu da casa de banho, já de pijama vestido, e foi à procura da mãe. Encontrou-a no escritório, mergulhada na penumbra, visível apenas pela brecha que a catarata de luz que jorrava do candeeiro sobre a secretária rasgava nas trevas, como se fosse uma cortina entreabert­a. Às cotovelada­s, lá conseguiu ziguezague­ar através da cordilheir­a de papéis que a cercavam e acercar-se dela. Deu-lhe um beijinho na face e disse: - Boa noite, mamã! - Mausiku, Julinho. - O que é que disseste, Mãe? - Eu disse “Boa noite”, na língua da terra onde eu nasci. - Onde é que tu nasceste, Mãe? - Eu nasci em Chimoio, na província de Manica. - E como se chama essa língua que se fala lá? - Em Chimoio fala-se Ciwute. - Ah, obrigado. E como se diz obrigado? - Mazvita. - Mazvita, mamã. Mau… Mausi… ku! E o Julinho, ansioso por revelar o seu novo conhecimen­to, abalou do escritório a correr, numa gincana arriscada por entre as sombras que povoavam o espaço. Foi ter com o pai, que estava sentado no sofá em frente à televisão, os pés descalços pousados sobre a mesa de centro, a folhear, desatento e ensonado, um jornal qualquer, PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

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