Jornal Cultura : 2019-08-20

Barra Do Kwanza : 16 : 16

Barra Do Kwanza

16 Cultura BARRA DO KWANZA | | 20 de Agosto a 2 de Setembro de 2019 me aposta sobre o cassetete, em prontidão combativa, a ver em que é que paravam as modas. O ovo começou então a piscar muito rapidament­e, numa mistura indistinta de sombras e de cores variadas, enquanto emitia um som: - Ziuzizizzi! O Julinho preparava-se para protestar que não tinha entendido nada. E já ia perguntar, “Mas que língua é essa, agora?”, mas calou-se de repente. Em vez disso, a ivelou um sorriso com os dentes à vista e, lentamente, esticou o braço ao mesmo tempo que estendia a mão aberta para o ovo, o qual, entretanto, tinha parado de piscar e voltara à sua cor azul original. Durante alguns momentos não aconteceu nada. Depois, devagarinh­o, à altura da mão do Julinho, começou a sair um tentáculo do ovo. Enquanto o tentáculo crescia em direcção à mão estendida do Julinho, uma série de excrescênc­ias, a fazer lembrar dedos, foram-se formando na ponta dele, engendrand­o uma mão parecida com a do Julinho, ainda que algo tosca. Até que a mão-tentáculo tocou, primeiro, e a seguir envolveu e afagou a mão do Julinho, o que teve o condão de fazer o ovo mudar de cor e pôr-se novamente a piscar. Tornou-se verde, depois transitou para amarelo, e a seguir para cor-de-laranja. Por im, pôs-se da mesma cor que o Julinho. O Azarias, entretanto, como ninguém lhe dera qualquer ordem em contrário, mantinha- se inerte, em postura militar a observar atentament­e o desenrolar dos acontecime­ntos. O Julinho sentiu um grande conforto naquele contacto com o ovóide. Pareceu ganhar uma áurea que se insinuava na noite que os envolvia aos dois acabando por se tornar ele próprio luminoso. - Tu também és de outra terra, não és? E falas outra língua. Anda, vem comigo, para me falares do sítio de onde vens – exclamou o Julinho em êxtase com tão inusitado visitante. Lentamente, muito lentamente, o braço-tentáculo do ovóide deslizou sobre os ombros do Julinho. De seguida, o Julinho virou-se e encaminhar­am-se ambos para dentro de casa pela porta das traseiras. Nesse momento, o ovo começou novamente a piscar e o guarda Azarias estava disposto a jurar que ouviu uma voz, que mais ninguém escutou, a dizer-lhe: - “Isso quer dizer boa noite em todas as línguas deste mundo”, e não só! Nas dos outros todos também. -Sim, excelência! – Rematou o guarda Azarias, batendo a devida continênci­a. Por detrás do ovo emergiu um novo tentáculo, que se esticou cerca de meio metro na direcção do Azarias, após o que repetiu o gesto dele quase na perfeição. A seguir, o Azarias viu, de boca escancarad­a, o Chefe Ovo e o Julinho atravessar­em a parede como se ela não existisse. Da super ície daquele estranho objecto soltou-se uma massa gelatinosa disforme, que foi, pouco a pouco, ganhando uma forma que fazia lembrar um ovo enorme, também ela azul. O ovo tomou o tamanho do senhor Azarias e deslizou, silencioso, em direcção ao Julinho, através do portão, como se ele não existisse, até parar à distância de um braço dele. O Julinho estava boquiabert­o. Já o Azarias, esse, pusera- se na mais erecta posição de sentido, a mão fir- dor que não conseguira­m identi icar, que rodava sobre si mesmo em velocidade decrescent­e, a pousar lentamente, envolto no mais absoluto silêncio. De início com o formato de disco, foi mudando de con iguração à medida que descia, até se tornar esférico, quando chegou mais ou menos à altura da cabeça do Julinho e parou, suspenso no ar. A luz da coisa esmoreceu, icando apenas a emanar como um fogo-fátuo. 9.5.2017 (I) Ngizemba dizumba dya iba Odizumba dya mukwadimi Kyoso ki ungizukame­na! Ngilenga ku muzukamena! Kuma odizumba dizu wisa Owibilu una wakufwisa Ulembwesa mutu kutenena Kuditunina, se kumesena Kukala mukwambela ngwami Kuxibisa kandale kudixiba! Odizumba dya mukwadimi (II) Omukwadimi ulengesa Woso ula ya watululuka Mukukala mukwambela Omakutu mu kididi kyakidi Bwene bwazele wixi bwa xidi Bwene bwa xidi wixi bwazela Kyenyeki pe uvudisa maka Omaka mama ma kuzembesa! (I) Odeio o mau odor/ O odor dum linguarudo/ Quando se aproxima de mim!/ Fujo de me aproximar dele/ Visto que este odor faz escorrer/ Aquele mal que faz perecer/ Que embarga a capacidade de uma pessoa/ Negar-se, sem querer/ Estar a dizer que não quer/ Fazer calar quem não se quer calar! O odor de um linguarudo (II) O linguarudo faz fugir/ Quem vive em paz/ Quando vai dizendo/ A mentira no lugar da verdade/ Onde está limpo diz que está sujo/ Onde está sujo diz que está limpo/ E assim multiplica as confusões/ Estas confusões que geram ódio! MÁRIO PEREIRA PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

© PressReader. All rights reserved.