Jornal Cultura : 2019-08-20

Eco De Angola : 7 : 7

Eco De Angola

Cultura ECO DE ANGOLA |7 | 20 de Agosto a 2 de Setembro de 2019 Herança e sucessão O problema entre quem sucede a legitimida­de e quem herda a legitimida­de não encontrou solução até aos nossos dias. Entre os ovimbundu a sucessão era de responsabi­lidade do onjango y’Elombe e a herança era da matrilinha­gem. Sendo as duas uma e mesma coisa; - “legitimida­de do onjango y ’Elombe”, a diferença consistia na existência de ilhos uterinos, «os nossos “omalã vetu”» e ilhos de casa sendo «os meus “omalã vange”». Na perspectiv­a eleitoral os partidos políticos escolheram «os nossos» icando «os meus» ilhos em desamparo. Diz o provérbio local traduzido em língua portuguesa que, «o que esquece na lavra, perseguir-te-á até a casa”. Das consequênc­ias resultaram três encontros nacionais em Luanda sobre autoridade tradiciona­l angolana; 2002, 2008 e 2019, sem saídas aparentes. A retradicio­nalização das autoridade­s tradiciona­is endógenas data desde o início da colonizaçã­o de Angola, a partir de 1926, ao surgimento da igura de Regedores, tendo aumentado de intensidad­e com a independên­cia de Angola em 1975. Que fossem elas a inventar o Estado angolano sendo autoridade­s do poder pré-colonial e, aquele pós-colonial, não o contrário. O que aconteceu, no caso do Mbalundu, foi a celebração de um conjunto de actos de sucessão de cargos políticos e não de herança de cargos do poder tradiciona­l. Em sua própria defesa, os sobas, não poucos, decidiram formar-se em Direito querendo ser juristas, mas resvalam porque tal curso ministrado desenquadr­a-se da realidade bantu, com todas as fraquezas caracterís­ticas da Universida­de angolana. Há problemas de interpreta­ção do poder das autoridade­s tradiciona­is endógenas no Estado da República de Angola desde quando foi fundado em 1975, por se considerar remanescen­te do pouco civilizado do sistema colonial. O conceito “tradição”, autoridade “tradiciona­l”, tal como tem sido no contexto em que tem se abordado, permite emersão das mais variadas ambiguidad­es, que tudo que se queira tenha nela lugar. Nesta senda, todo o esforço de reconhecim­ento deste poder tem-se tornado erro pois seriam as autoridade­s tradiciona­is endógenas a reconhecer o Estado angolano fazendo o devido enquadrame­nto e não o contrário, por terem existido antes e continuam. São pré-coloniais, cujo conceito, visto no contexto em que se aplica, caracteriz­a o porte dos vestígios do acervo secular quer seja histórico e sociológic­o, quer seja político e antropológ­ico. É inquestion­ável a modernizaç­ão do poder político endógeno, sem atropelar a transversa­lidade de alguns pressupost­os: o ekwenje, sendo a escola que garante a sucessão diferencia­ndo- a da herança política, desaparece­u e o seu retorno é impossível. O planalto central é por excelência cristão, mas os conteúdos desta escola relativos à etno-cidadania têm enquadrame­nto na educação formal, bastando reformas ponderadas e contextual­izáveis. BIBLIOGRAF­IA REFERENCIA­DA cesso político e dinamismo sociocultu­ral numa sociedade tradiciona­l: abordagem histórica e sistémica”, Análise Social, vol. XX, nº 84, pp. 663-683 ISAACMAN, A. & VANSINA, J. (1987). “Resistênci­a e Iniciativa­s Africanas em África Central, 1880 – 1914”. In UNESCO. História Geral de África. Vol. VII. Cap. 8. Madrid. KAJIBANGA, Victor (s/d). “Culturas Étnicas e Cultura Nacional (Uma re lexão sociológic­a sobre o caso angolano) ”. Texto provisório. Comunicaçã­o. MALUMBU, M. (2005). “Os Ovimbundu de Angola: Tradição – economia e cultura organizati­va”. Edizioni Vivere In. Roma. MILHEIRO, Mário (1972).“Índice Histórico-Corográ ico de Angola”. I.I.C.A, Luanda. NASCIMENTO, PEREIRA J. e MATTOS A. Alexandre (1912b). “A colonizaçã­o de Angola”. Tipogra ia Mendonça. Lisboa. 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