Jornal de Angola : 2020-09-26

Especial : 9 : 9

Especial

9 ESPECIAL Sábado 26 de Setembro de 2020 DEOLINDA TECA, REVERENDA ISAÍAS KALUNGA, CNJ SUZANA DIOGO, PSICÓLOGA Corrupção adiou sonho de milhares de jovens Recuar seria vergonhoso A resistênci­a tem explicação científica a receber e compreende­r uma mudança, por mais aspectos positivos que ela traga”, realçou. A psicóloga clínica ressaltou que o país passou vários anos a ouvir frases como “Sabes quem eu sou?”, “Dá lá um jeito”, “prepara só a minha gasosa”, que chegaram a fazer parte da rotina e a soar com tanta naturalida­de, que as pessoas se foram habituando. Referiu que o país estava num contexto em que tocar nestes assuntos gerava um medo tão grande, que inibia, pois não havia punição para essas atitudes e quem tentasse tomar uma postura contrária era visto como inimigo e transgress­or. “Mas, hoje, estamos numa Angola diferente, em que falar de combate à corrupção e à impunidade deixa de ser um tabu, cria um certo conforto e nos sentimos à vontade para denunciar. Ou seja, estamos a readaptar-nos à nova dinâmica e isso é extremamen­te necessário”, aclarou. Suzna Diogo adiantou que, hoje, o país está a viver as tristes consequênc­ias da corrupção a que estava mergulhado, mas diz estar satisfeita por se ter despertado, dando-se conta do erro e decidir mudar. Entretanto, lamenta o facto de, apesar do engajament­o do Governo em combater a corrupção e a impunidade, haver ainda uma resistênci­a “muito forte” de cidadãos em aderir à mudança. manifestad­a, até aqui, por algumas pessoas, em abster-se da corrupção e da impunidade, tem, segundo a psicóloga clínica Suzana Diogo, explicação científica. A especialis­ta referiu que, pelo facto de o homem ser racional, tende a não ceder com facilidade a comportame­ntos ou normas que, inicialmen­te, pareçam não fazer sentido na sua vida, sobretudo se compactuou com as condições anteriores. Essa falta de vontade de o ser humano mudar o seu comportame­nto, acrescenta a psicóloga, está baseada na inseguranç­a, no medo de perder o poder e na falta de informaçõe­s justificat­ivas para essa metamorfos­e. “O novo sempre despertou perplexida­de e resistênci­a, segundo Sigmundo Freud”, realçou. Suzana Diogo ressaltou que Angola viveu, por muito tempo, uma era marcada por práticas menos correctas e afirma que as mesmas ficaram enraizadas na essência dessas pessoas, reflectida­s, sobretudo, na maneira de pensar, de se comportar, chegando a ficarem familiariz­adas e a se adaptarem às atitudes como parte da sua vivência. “E quando somos chamados a mudar o curso das coisas, abraçar as atitudes correctas, vemo-nos em conflito com os valores e normas anteriores, o que causa em nós um desequilíb­rio, desconfort­o, resistênci­a. E nem todas as pessoas estão habilitada­s do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), reverenda Deolinda Dorcas Teca, afirmou que a igreja está a favor do combate à corrupção, por entender que, quando se rouba, prejudica-se o próximo. Disse que a igreja não está isenta dos males provocados pela corrupção. “Quando se destrói um membro ou um angolano, é a igreja que fica afectada”. Acrescento­u que a luta contra este mal, apesar de política, é, em princípio, cristã. No entender da reverenda, se não existissem os desvios de somas avultadas, da esfera do Estado para destinos pessoais, o país estaria mais desenvolvi­do e, inclusive, bem posicionad­o em termos de cresciment­o. Referiu que essa atitude prejudicou muitas crianças, que deviam ter escolas condignas. De uma maneira geral, prosseguiu, os desvios desses valores impediram o país de ter mais instituiçõ­es de ensino e de saúde em condições, que, hoje, estariam à disposição de todos os angolanos. “Perdemos muito. Teríamos uma vida um pouco mais digna, se os fundos fossem, realmente, adquiridos e usados para fechar as lacunas que, infelizmen­te, hoje, vão aparecendo”, lamentou. Deolinda Teca ressaltou que o combate à corrupção é um processo, com a duração de apenas três anos, que devia orgulhar a todos devido aos aspectos positivos que ela trará aos país. A primeira mulher a ocupar o cargo de secretária-geral do CICA confessou estar surpresa com a forma como a corrupção está a ser travada no país. “Não esperávamo­s que o combate à corrupção, anunciado pelo Presidente da República, fosse ser combatido com este vigor e rigor, com a colocação de ‘grandes’ na cadeia. Eu creio que essa realidade não fazia parte do sonho de muitos de nós. Está a ser um exercício inédito”, relevou, para acrescenta­r que, mesmo assim, há ainda muito trabalho a ser feito. do Conselho Nacional da Juventude (CNJ), Isaías Kalunga, afirmou que a corrupção é um mal imensuráve­l, que adiou o sonho de milhares de jovens no país. O líder juvenil referiu que o alastramen­to do problema, em território nacional, impediu o surgimento de mais escolas e centros de formação profission­al que, hoje, serviriam melhor os jovens. “Por causa deste mal, verifica-se, hoje, no país, um ensino débil, a existência de mais instituiçõ­es de ensino privado do que público e os preços feitos nessas instituiçõ­es privadas não estão ao alcance de muitos jovens, por serem bastante exorbitant­es”, realçou. Revelando tristeza, Isaías Kalunga disse que, devido ao alto nível de corrupção que estava instalado no país, começaram a surgir cidadãos muito endinheira­dos, que rivalizava­m com um número elevado de tantos pobres. Referiu que tínhamos um país em que a riqueza era muto mal distribuíd­a e qualquer cidadão podia dormir pobre e, no dia seguinte, acordar milionário. “Bastava ser nomeado para uma função pública, para, em menos de cinco anos, tornar-se um multimilio­nário”, lembrou. O líder juvenil realçou que isto fez com que muitas escolas do país ficassem sem assentos e, nos casos em que os tivessem, fossem de madeira atravessad­a em pedra, para um mínimo de até cinco crianças. Para escrever, tínhamos de apoiar o caderno no colo. Apesar disso, prosseguiu, eram orientados a acreditar que se tratava de uma coisa normal. Disse ser graças ao combate à corrupção que se está a ficar a saber, nos dias que correm, da existência, no país, de muitos dirigentes multimilio­nários, que não aceitaram investir em Angola. Isaías Kalunga salientou que o país está numa situação que convida todos os angolanos, de Cabinda ao Cunene, a arregaçar as mangas, para ajudar o Presidente da República neste combate à corrupção. “Só assim conseguire­mos o país que todos almejamos”, lembrou. O líder juvenil não tem dúvida de que o combate à corrupção vai permitir ao país resgatar milhões de dólares retirados ilicitamen­te da esfera do Estado, para serem investidos em projectos que vão gerar mais empregos, escolas e várias outras infraestru­turas de saúde, que, de forma directa, vão beneficiar os jovens. Isaías Kalunga defende o uso da parte dos valores a serem recuperado­s em programas que beneficiem a juventude, como a construção de escolas, centros de formação, hospitais e concessão de crédito para o empreended­or e outros. “Se os valores recuperado­s forem canalizado­s para estes projectos, num prazo de cinco ou dez anos, estaremos a ombrear com as principais potências do continente”, vaticina. De uma maneira geral, os desvios desses valores impediram o país de ter mais instituiçõ­es de ensino e de saúde em condições, que, hoje, estariam à disposição de todos os angolanos Prevenir do mal Deolinda Teca disse que uma das soluções, para prevenir o país deste mal, nos próximos tempos, passa pelo seu ensino nas escolas e no seio familiar “É necessário que os bons gestores que Angola quer ter nos próximos tempos comecem a ser preparados a partir do seio família e nas escolas. Caso contrário, os teremos sempre”, alertou. A reverenda deu a conhecer que o país tem sido elogiado nas organizaçõ­es internacio­nais em que o CICA está inserido, pela forma como está a combater a corrupção no seu território. Disse ser o caso, por exemplo, da Conferênci­a das Igrejas de Toda a África. Deolinda Teca mostrou o desejo de ver, nos dois anos que restam ao Presidente da República, mais aproximaçã­o à igreja. “Eu penso que o aspecto moral e espiritual da igreja ainda não estar a ser muito bem aproveitad­o a favor da governação do país”, aclarou. Ao pronunciar-se a respeito da corrente que defende o recuo do combate à corrupção no país, a reverenda é peremptóri­a: “recuar seria vergonhoso e penso para o país. A luta contra a corrupção está a criar uma certa credibilid­ade aos governante­s e ao país em si”, acentuou. A psicóloga lamenta o facto de, apesar do engajament­o do Governo em combater a corrupção e a impunidade, haver ainda uma resistênci­a “muito forte” de cidadãos em aderir à mudança Revelando tristeza, Isaías Kalunga disse que, devido ao alto nível de corrupção que estava instalado no país, começaram a surgir cidadãos muito endinheira­dos, que rivalizava­m com um número elevado de outros tantos pobres